17 – Há espaço para todos. A solução para Almere

Para contrastar o que escrevi no texto anterior, vou agora dar um bom exemplo de como uma cidade plane(j)ada de raiz pode conjugar de forma inteligente todos os meios de transporte, sem necessariamente privilegiar o automóvel. Esta cidade se chama Almere1,2, fica próximo de Amesterdão (Países Baixos) e é considerada cidade-irmã de Milton Keynes, pois as duas nasceram na mesma época e com propósitos similares: dar uma alternativa de vida urbana mais próxima natureza (as duas tiveram forte influência do modelo Garden City do Ebenezer Howard) e com menores densidades populacionais, convidativo para famílias querendo fugir da confusão urbana dos grandes centros.

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Tabela 1 – Repartição modal (%) de Almere e Milton Keynes. Fonte: http://www.epomm.eu/tems/index.phtml

Diferente de Milton Keynes que importou um estilo “arrojado” pró-automóvel (primeiro “encaixamos” o automóvel, depois o resto se vê), Almere não desprezou suas raízes. Mantendo-se firme à forte tradição holandesa de plane(j)amento integrado dos usos do solo e transportes multimodais, Almere foi construída e ainda se expande sobre uma terra reclamada do mar. Muitas vezes os Países Baixos são só lembrados pelas bicicletas, mas é surpreendente a visão multimodal de plane(j)amento de transportes que esse país tem já há tempos. Eles foram provavelmente os primeiros a perceber a necessidade de se ter muitas alternativas baratas e competitivas e não o contrário. A oferta de transporte de Almere pode ser resumida da seguinte forma3,4,5:

1. Automóvel: Acesso a 2 autoestradas nacionais e rede viária não-óbvia, significando que não há necessariamente acesso universal ao automóvel, com diversas soluções de acalmia de tráfego e espaço partilhado (http://en.wikipedia.org/wiki/Shared_space).

2. Autocarros/Ônibus: Almere possui uma rede de corredores segregados com um sistema tipo BHLS – Bus with High Level of Service6, que pode ser considerado o BRT europeu, chamado de MAXX. Num próximo texto irei abordar com mais detalhe o sistema de Almere e outros BHLSs e BRTs.

3. Comboio/Trem: Almere tem 6 estações! Milton Keynes tem 1. Nessa simples análise pode-se perceber já a importância dada ao sistema ferroviário. Estas estações funcionam realmente como o centro dos bairros, servindo como um hub intermodal, onde os autocarros, as bicicletas, automóveis e táxis são os meios alimentadores.

4. Bicicletas: Almere possui uma “autoestrada” totalmente segregada para bicicletas ao longo da linha de comboio e também soluções diversas maioritariamente segregadas inseridas na malha urbana.

5. A pé: Calçadas e passeios de excelente qualidade e boa largura, com preferência total ao pedestre, pessoas em cadeiras de rodas, carrinhos de bebê e crianças.

No sentido oposto de Milton Keynes, Almere soube como segregar os vários corredores de tráfego, integrando nas estações, conseguindo compatibilizar as várias densidades populacionais e o uso do solo misto e policêntrico, medidas que levam à diminuição das viagens, ao menor uso do automóvel e ao maior uso da bicicleta e meio pedonal7,8.

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Figura 1 – Estação central de Almere.  Fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=426671

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Figura 2 – Uma cidade que conseguiu conjugar baixas/médias densidades e natureza com transporte público. Fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=426671

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Figura 3 – Uma rua residencial totalmente partilhada (sem nenhuma medida de segregação) que acaba… Fonte: Google Earth

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Figura 4 – Num cruzamento onde os ciclistas podem seguir a direito por uma via totalmente segregada. Uma solução muito comum. Fonte: Google Earth

Outro exemplo de Almere: Na foto a seguir uma zona residencial de baixa densidade (para padrões holandeses) com um aprazível ambiente, muito verde e água. Em vermelho está o percurso para bicicletas partilhado + segregado (ponte) + partilhado. Em preto está o percurso para o automóvel, muito menos óbvio. Em azul o corredor BUS MAXX. Neste pequeno exemplo está resumido a essência de Almere: Baixa densidade (mas nem tanto), muita natureza, boa oferta de todos os meios de transporte.

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Figura 5 – Almere. Zona residencial. Fonte: Google Earth

Na estação central de Almere uma boa solução que permite o acesso a todos, inclusive automóvel: Kiss and Ride (deixar ou buscar alguém na estação) e Park and Ride (não aparece na foto mas há oferta na rua e em parques de estacionamento).

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Figura 6 – Estação central de Almere. Fonte: Google Earth

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Figura 7 – Vários níveis de segregação. Fonte: Google Earth

Referências:

  1. http://en.wikipedia.org/wiki/Almere
  2. https://goo.gl/maps/1uZue
  3. http://bicycledutch.wordpress.com/2011/12/10/fast-urban-cycle-route-spoorbaanpad-almere/
  4. http://departmentfortransport.wordpress.com/2012/06/30/frankly-mr-franklin/
  5. http://arch.design.umn.edu/travel/netherlands/documents/Doherty_Cycling_in_the_Netherlands.pdf
  6. http://www.uitp-bhls.eu/
  7. http://eau.sagepub.com/content/8/1/67.full.pdf
  8. http://faculty.arch.utah.edu/bartholomew/Policies_Places.pdf
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