1 – O que é a cidade?

1 – O que é a cidade?

Quando comecei meu mestrado em planejamento do território os professores muito falavam da dinâmica da cidade, da cidade criativa, da cidade como um organismo vivo. Eu pensava: que conversa sem pé nem cabeça é essa? Como uma cidade, que eu sempre achava que era nada mais que um amontoado de prédios e pessoas apressadas, pode ser viva? Dinâmica?

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Figura 1 – Uma cidade é isto? Fonte: http://cetspeducacao.blogspot.pt/p/na-midia_4.html

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Figura 2 – Um belo lugar para passear com a namorada. Fonte: http://www.coletivoverde.com.br/transito-sao-paulo/

Porém, se pensarmos na cidade como um organismo vivo, um corpo humano, vemos que as coisas fazem mais sentido. As ruas são as veias que transportam recursos diversos (recursos humanos, água, esgoto, eletricidade, recolha de lixo, comunicação) necessários para este organismo funcionar. A câmara municipal/prefeitura/governo é o cérebro (aqui a analogia cidade/corpo humano falha um bocado, pois se espera que o cérebro represente a razão, característica ausente em muitas administrações municipais) e o centro da cidade é o coração. O vídeo abaixo, que mostra as ruas de lisboa como veias, é interessante.

Dia 1 de Junho de 2012, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, Brasil) contabilizou 295 km de congestionamento em São Paulo, equivalente a uma fila de carros parados do Porto à Lisboa. Sem dúvida a rede viária (veias da cidade) de São Paulo teve um ataque cardíaco (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1099213-sao-paulo-bate-recorde-e-registra-a-maior-lentidao-da-historia.shtml). Vários fatores levam a uma pessoa a ter um ataque cardíaco e talvez o principal seja excesso de peso (gordura). Um sistema de transporte excessivamente focado no automóvel não é nada mais que um sistema com muitas gorduras, faz com que a cidade fique gorda, com excessos que levam a este ataque cardíaco.

Como seria, por exemplo, uma rede viária dimensionada com critérios utilizados no dimensionamento de uma rede de distribuição de água? Com certeza seria muito mais pequena, extremamente otimizada e somente com o necessário excesso de capacidade. O rodoviarismo, que varreu bairros e despedaçou cidades nos quatros cantos do mundo durante o século XX, criou sistemas extremamente ineficientes de um ponto de vista económico, ambiental e funcional. Como um sistema de transporte composto por veículos 80% vazios a maior parte do tempo pode ser sustentável? Como 2 toneladas de metal usadas para transportar 70 kg de carne pode ser sustentável? Como uma cidade que permite uma pessoa gastar um litro de gasolina para comprara um litro de leite pode ser sustentável ou saudável, para este organismo vivo chamado cidade? Isso tudo é a gordura que falei antes que corre pelas veias da cidade.

O leitor neste momento pode se perguntar: Qual a solução então? Eu gosto de andar de carro, pago por ele (paga uma parte na verdade) e não pretendo mudar meus padrões de mobilidade. Ok, vivemos numa democracia e todos têm o direito de se locomover da forma que quiser e cada um deve ter noção dos diversos impactos (diretos e indiretos) decorrentes das decisões que toma. E é aqui que entra a função do cérebro, o governo: se vivêssemos numa “ditadura ambiental” bastaria o governo proibir o automóvel e ponto final, não tínhamos mais problemas com a poluição e todos os custos inerentes a esse meio de transporte.

Porém, na minha opinião, e eu me considero um liberal, a principal função do governo não é escolher pelo cidadão mas possibilitar ao cidadão fazer a melhor escolha, através da educação. Infelizmente o que vemos é que os governos escolhem por você. Você acha que escolhe usar o carro, mas na verdade você é fortemente condicionado a optar por esta escolha, através do bombardeamento constante da publicidade, dos incentivos para compra do carro e da ilusão de que um carro é um património (ou uma reserva de valor).

Portanto vamos cuidar das nossas cidades como cuidamos do nosso corpo pois, muitos antes de nós nascermos, outros lutaram e morreram simplesmente para conseguir manter uma cidade viva. Não vamos nós agora sistematicamente destruí-la com nossas más decisões. Você não precisa gostar de andar a pé, ver monumentos, passear com seu filho de bicicleta ou tomar um fino/chopp numa praça da cidade. Se pra você sinónimo de lazer é fechado em casa na frente da televisão/computador e a cidade não é nada mais que um lugar de passagem, tudo bem, mas você deve respeitar quem gosta de estar na cidade, assim como sua vontade de só passar é respeitada por todos. Ou alguma vez você já viu um peão/pedestre “estacionado” no meio da rua impedindo sua passagem, semelhante a um carro estacionado num passeio/calçada?

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